A Associação Força Invicta vem a público manifestar integral apoio e solidariedade à Major Caroline, vítima de um ato gravíssimo de violência, no qual um soldado atentou contra sua vida ao efetuar disparos de arma de fogo.
Trata-se de um episódio que causa profunda indignação e que representa uma ruptura inaceitável dos pilares de hierarquia, disciplina e confiança que sustentam a atividade militar estadual. A Força Invicta reafirma que não coaduna, em hipótese alguma, com qualquer forma de violência, sobretudo quando praticada por um profissional investido na missão de proteger a sociedade e seus próprios pares.
Desde o primeiro momento, a Associação atuou de forma diligente, prestando apoio integral à associada e à sua família, colocando à disposição todos os meios necessários para garantir o adequado tratamento neste momento crítico, além de assistência jurídica especializada para o acompanhamento rigoroso do caso.
A Força Invicta defende que os fatos sejam apurados com máximo rigor, celeridade e responsabilidade, assegurando a devida responsabilização da autora, na forma da lei.
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Para além da responsabilização individual, o episódio impõe uma reflexão institucional necessária e inadiável.
Não é razoável que, no ingresso na carreira, sejam exigidos dos profissionais elevados padrões de seleção — avaliações intelectuais, físicas, de saúde, psicotécnicas e toxicológicas — e que, ao longo da atividade profissional, especialmente quando submetidos a elevados níveis de estresse e sobrecarga, não haja a mesma exigência sistemática de acompanhamento, reavaliação e suporte institucional.
É imperativo reconhecer que muitos profissionais passam anos sem avaliações periódicas essenciais, como exames toxicológicos, psicotestes e capacitações continuadas em áreas sensíveis, como atualização legislativa, técnicas de abordagem, defesa pessoal, treinamento de tiro e preparo físico. Essa lacuna compromete não apenas a saúde do profissional, mas também a segurança dos colegas de trabalho e da própria sociedade.
Trata-se de uma realidade que atinge toda a tropa, independentemente de posto ou graduação, e que deve ser enfrentada de forma responsável e estruturada.
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Outro ponto sensível, que não pode ser ignorado, diz respeito à relação entre saúde mental e remuneração.
No modelo atualmente adotado no Estado da Bahia — distinto do regime de subsídio previsto constitucionalmente — a remuneração do policial militar varia conforme a unidade de lotação e, sobretudo, em razão da realização de jornadas extraordinárias, podendo representar acréscimos superiores a 30% ou 40% da renda mensal.
Na prática, isso significa que eventuais restrições à atuação operacional, ainda que temporárias e motivadas por acompanhamento psicológico, podem gerar impacto direto e significativo na remuneração do profissional. Esse fator cria um desincentivo concreto à busca por apoio psicológico, influenciando decisões individuais e contribuindo para a postergação de cuidados necessários.
É fundamental registrar que esse contexto, em nenhuma hipótese, justifica ou relativiza a conduta praticada, que deve ser rigorosamente apurada e responsabilizada. No entanto, ignorar esses fatores estruturais compromete a capacidade institucional de prevenir novas ocorrências.
Não se pode tratar a saúde mental sob uma lógica baseada em estereótipos de invulnerabilidade. Há um componente real — de natureza econômica e funcional — que impacta diretamente a decisão do profissional de buscar ajuda. A preservação da saúde mental passa, necessariamente, pela garantia de que esse acesso ocorra sem prejuízo à sua subsistência, à sua dignidade e à de sua família.
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Medidas concretas e boas práticas já consolidadas precisam ser consideradas.
A Força Invicta defende a implementação de medidas objetivas, como:
- Avaliações periódicas obrigatórias, ao menos anuais, incluindo exames toxicológicos, avaliação física, psicológica e de capacitação técnica e doutrinária;
- Programas estruturados de educação continuada, com atualização permanente em legislação, técnicas operacionais, uso progressivo da força e tiro policial;
- Previsão institucional de tempo para preparo físico, com a possibilidade de dispensa de, no mínimo, uma hora da jornada de trabalho para a prática regular de atividade física, a exemplo do que já ocorre em outras instituições, como a Polícia Federal.
Tais exigências não são excepcionais. Elas já são adotadas, inclusive:
- No setor privado de segurança, onde há protocolos periódicos obrigatórios;
- Em atividades de alta responsabilidade, como a de pilotos de aeronaves, submetidos a rigorosos controles físicos, psicológicos e técnicos contínuos.
Não há justificativa razoável para que profissionais responsáveis diretamente pela preservação da ordem pública e pela proteção da vida não estejam submetidos a padrões equivalentes ou superiores de acompanhamento e avaliação.
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Por fim, é necessário avançar também no fortalecimento dos mecanismos institucionais de acompanhamento e supervisão.
A Força Invicta defende o aprimoramento dos mecanismos de identificação precoce de riscos comportamentais e o fortalecimento da atuação da cadeia de comando no acompanhamento permanente do efetivo.
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A responsabilização pelo fato é indispensável, mas não exclui a necessidade de revisão de práticas, doutrinas e diretrizes institucionais, com foco na prevenção.
Não se trata apenas de reagir a um caso isolado, mas de agir de forma estruturante para que situações como essa não se repitam — e para que nenhum profissional de segurança pública venha a ser vítima de violência dessa natureza.
A Associação Força Invicta seguirá firme na defesa da vida, da dignidade dos profissionais de segurança pública e da construção de um ambiente institucional mais seguro, equilibrado e responsável.